Deus salve a Rainha!

Lembro quando era pequeno e vi na TV uns sujeitos de cabelo arrepiados, calças rasgadas e voz desafinada, mas cantando no tempo, repetia um refrão dizendo que todos nós eramos uns “Sem futuros”. Aquele riff ecoando pelo meu canal auditivo e atingindo o meu cérebro com energia e vigor. Fiquei hipnotizado com o show. Não entendia o que eles falavam nem a importância deles. Só iria descobrir isso uns 7 anos depois.

O ano era 1993. Eu tinha 7 anos.

Como disse no ultimo post, Malcom McLaren foi um dos maiores responsáveis pela propagação do punk-rock no Reino Unido. Ele tinha uma loja chamada “Let It Rock”, uma loja de roupas para a nova geração de teddy boys – filhotes das gangues originais, surgidas nos idos de 53. Desde então, McLaren tornou-se uma celebridade entre músicos e modernos londrinos.

Em 1973, os integrantes da banda protopunk “New York Dolls” entram na “Let It Rock”. O visual da banda (uma mistura de glitter e sadomasoquismo) conquista McLaren e ele vira seu empresário. Em Nova Iorque, percebe o quanto os New York Dolls estavam ultrapassados e pula fora. Leva a semente do Punk para a terra da Rainha.

Mais uma vez em Londres, reassume a sua loja – agora chamada SEX – e transforma-a no epicentro do terremoto que sacudiria o mundo pop, ajudado pela estilista Vivienne Westwood. Criou os Sex Pistols.

Reunir quatro Pistols, Steve Jones e Paul Cook (respectivamente guitarrista e baterista) viviam na SEX. Glen Matlock, baixista e empregado da loja aos sábados, e um velho freqüentador do lugar, um adolescente de dentes podres chamado John Lydon, que nunca tinha cantado na vida antes, foi aprovado pela sua postura e comportamento anti-social. Em resumo, era perfeito para a vaga. Os ensaios começam. Agora a banda chama-se Sex Pistols e John Lydon vira Johnny Rotten (literalmente, Joãozinho Podre).

O primeiro concerto acontece em 6 de novembro de 1975, que foi um fiasco inevitável dada a pouca preparação da banda. Esse mítico show é retratado no filme 24H Party People(A Festa Nunca Termina). A personagem central do filme, Tony Wilson (patrão da editora Factory e da discoteca Hacienda – responsável pelo lançamento de bandas como os Joy Division, Happy Mondays e New Order), afirma no filme que aquele concerto foi o início do movimento que se seguiria, um movimento que ainda hoje permanece e com muito sucesso.

Paralelamente ao início dos Pistols, dezenas de bandas começam a seguir o estilo, sobretudo em Londres. A epidemia alastrou-se rapidamente. O motivo para tanta rapidez era simples: estava na hora de renegar a mesmice dos paleolíticos rockstars da época.

O movimento crescia a cada dia e bandas não paravam de surgir, mas até meados de 1976 nenhum disco havia sido lançado. Os Pistols assinam o histórico contrato com a EMI, chega às lojas o histórico compacto “Anarchy in the U.K.”, que acertou o alvo, mas os Pistols ainda eram conhecidos apenas no gueto de onde surgiram.

Mas a televisão encarregou-se de levar o punk aos púdicos lares ingleses. 1 de dezembro de 1976, em um dos programas de maior audiência da TV inglesa, dois milhões de britânicos passam a amar ou odiar os Sex Pistols. Motivo: pela primeira vez na história, a expressão “Fuck Off” (Foda-se) é dita diante das câmeras. O protagonista da história só podia ser Johnny Rotten.

Melhor golpe de marketing seria impossível. A imprensa caiu de pau no episódio, detonando os Pistols por completo e, de quebra, levando o movimento às primeiras páginas de todos os jornais. Dez mil cópias de “Anarchy In The U.K.” são vendidas diariamente. Contudo os Pistols são chutados da EMI.

Glen Matlock, que nunca se deu bem com Johnny Rotten, sai da banda, motivando a entrada daquele que viria a ser o maior símbolo do punk rock em todos os tempos, Sid Vicious.

O melhor amigo de Rotten não sabia tocar e estava o tempo todo chapado com drogas de todo o tipo. Contudo, sua performance (posando) ao vivo e sua personalidade autodestrutiva deram o toque final na fórmula do grupo.

Os Pistols assinam com a gravadora A&M Records, e aproveitando os 25 anos da Rainha no poder da Inglaterra, a banda solta o compacto de “God Save The Queen”. A canção trazia uma das máximas do movimento punk: “Não há futuro na Inglaterra.”

Enquanto a banda chegava ao fim, Sid Vicious estava internado num hospital, a recuperar-se de mais uma overdose. Depois do desmantelamento dos Pistols, o baixista ainda gravou algumas canções com Cook e Jones, como a absurda versão de “My Way” e “Belsen Was A Gas”, incluídas no filme e disco The Great Rock N Roll Swindle.

Vicious iniciou então uma carreira solo, acabada numa cela de cadeia. Preso pelo suposto assassinato de sua namorada Nancy Spungen, em 11 de outubro de 1978. O fato nunca ficou totalmente esclarecido: o corpo esfaqueado foi achado no banheiro do quarto 100 do Hotel Chelsea, onde eles viviam. Boatos dizem que Sid estava completamente chapado de heroína ao seu lado. O baixista foi preso imediatamente e só saiu da cadeia após a Virgin ter pago uma fiança de 50 mil dólares. Em menos de 24 horas depois de sua libertação, Vicious sofre uma overdose de heroína no banheiro da casa de sua mãe durante uma festa. Aos 21 anos de idade, estava morto o homem-símbolo do punk rock.

Ok, todo mundo sabe que não foi o Sid que matou a Nancy, e sim o traficante dela. Todos que conheciam os dois sabem disso, está documentado no livro “Mate-me, por favor.”

@GutemHC

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